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A Gravata e o Ministério da Desburocratização

24 December 2009 661 views 2 Comments

Em 2008, houve uma tentativa – infelizmente fracassada – de livrar o Congresso Nacional das gravatas. Foi apresentado projeto de lei desobrigando o uso da gravata e paletó pelos parlamentares, como medida para economia de energia dos aparelhos de ar-condicionado. O projeto foi vetado rapidamente pela mesa diretora do Senado.

A primeira vista, podemos pensar que o veto do projeto1 se deu por questões puramente de elegância e formalidade. Mas há uma razão maior, que remonta aos tempos de Jesus Cristo. O tema é delicado e, por isso, constantemente abafado pela mídia. O que poucos têm coragem de revelar é o domínio exercido pela gravata sobre os homens.

Antes mesmo do surgimento da gravata, já havia um evangelho, sonegado tanto por cristãos como por judeus, e retirado da Bíblia durante o Concílio de Nicéia, que pregava o repúdio de Jesus ao acessório. Martin Scorcese retratou a história narrada nesse evangelho em seu polêmico filme “A última tentação de Henry Sobel”.

Por ser a única rede televisiva que não possui qualquer ligação com religiões, só a Record teve imparcialidade suficiente para apresentar o filme2 e provar, mais uma vez, que a Universal é a verdadeira representante do Senhor.

Sobre seu efetivo surgimento, conta-se que a gravata apareceu no século XVII, durante a guerra dos trinta anos, quando os mercenários croatas a serviço da França utilizaram uma tira no pescoço para diferenciar soldados e superiores. Os parisienses – sempre eles – acharam o adorno militar coisa finíssima e lançaram a moda.

Observando o efeito da gravata nas pessoas, mais especificamente em Luís XIV (ele mesmo, o radiante), Rousseau, com toda sua perspicácia, cunhou sua célebre frase: “L'Homme nait bon. C'est la société qui le transforme" (O homem nasce bom. É a gravata que o transforma).

E nem precisava ser um Rousseau para perceber que algo criado por mercenários e popularizado por parisienses não daria em boa coisa.

No entanto, patrocinado pelas elites engravatadas, Hobbes conduziu uma das campanhas publicitárias de maior sucesso de todos os tempos, glorificando a gravata e convencendo o mundo de que tudo era culpa do próprio homem.

Nas propagandas da campanha, foram imortalizados dois dos maiores slogans da filosofia política mundial: "Homo homini lupus" (O homem é a gravata do homem) e "Bellum omnium contra omnes" (É a guerra de todos contra a gravata). A campanha fez com que a peça do vestuário passasse de terrível vilã a vítima das atrocidades da humanidade, deixando de ser perseguida para ser protegida.

Durante um longo período, os críticos da gravata foram severamente reprimidos. A situação piorou quando a Igreja finalmente aceitou a teoria heliocêntrica e pensou ter dizimado todas as bruxas, pois eles passaram a ser os principais alvos da Santa Inquisição, para sorte de Galileu e de Minerva McGonagall.

Só no começo do século XX é que o movimento de conscientização contra a gravata voltou a tomar força. Um dos principais nomes da revitalização do movimento foi Mahatma Gandhi, que, ao libertar-se do pano no pescoço (ele era advogado), lutou até a morte pela causa. No entanto, a mídia mundial, distorcendo seus ensinamentos, fez com que tudo parecesse uma mera luta contra a colonização.

Aqui no Brasil também houve manifestações. Os efeitos malignos da gravata nas repartições públicas foram alvo de denúncias desde 1943, quando o poeta e então funcionário público João Cabral de Melo Neto, no manifesto “Difícil ser Funcionário”, em nome de todos os funcionários públicos, escreveu em tom de protesto: “Não me sinto correto/De gravata de cor”3.

Mesmo vítima de represálias, ele continuou sua luta por meio de mensagens espalhadas por sua obra. O “ovo de galinha”4, a que se refere no poema de mesmo nome, é uma clara metáfora para a peça do vestuário. Ainda mais direto é seu poema “cão sem plumas”5, comovente história de um homem que, por não usar a infame tira de pano, era tratado como animal pela sociedade. A crítica literária, flagrantemente corrompida, reduziu o texto a uma simples crítica social da pobreza às margens do Rio Capibaribe.

Em 1979, para combater a gravata, entra em cena Hélio Beltrão, pai da jornalista Maria Beltrão, que cobriu as férias dos apresentadores titulares do Bom Dia Brasil, em 2003, e, desde 2006, apresenta o Oscar junto do José Wilker (A Wikipédia, fundada por um homem de gravata borboleta6, desviou, em claro boicote, a atenção para sua filha).

Hélio Beltrão, com um audacioso plano para salvar o país das gravatas, ludibria o então presidente João Figueiredo, convencendo-o a instituir o Ministério da Desburocratização. Como Hélio Beltrão tinha votado a favor do AI-57, o general, inocentemente, acreditando que ele só queria colocar em prática outras idéias sem futuro, como os Juizados de Pequenas Causas e Estatuto da Microempresa, autorizou a criação da pasta.

E foi assim que, em 1979, foi criado no Brasil o Ministério da Desburocratização. O nome seria autoexplicativo caso estivéssemos em outro país.

Em uma de suas primeiras medidas, o Ministro da Desburocratização Hélio Beltrão aboliu a obrigatoriedade do uso da gravata nas repartições públicas, como relata reportagem do jornal “A Tarde”, de 19/10/19798.

O que a primeira vista parecia uma medida sem muita relevância, era claramente o ato de um homem obstinado a acabar com um dos maiores males que já assolaram a humanidade. E para os que acham que a medida só levou em consideração o conforto do vestuário, a seguinte frase do pai da apresentadora reserva do Bom Dia Brasil em 2003 prova o contrário:

  • "O brasileiro é simples e confiante. A administração pública é que herdou do passado e entronizou em seus regulamentos a centralização, a desconfiança e a complicação. A presunção da desonestidade, além de absurda e injusta, atrasa e encarece a atividade privada e governamental".

    Acompanhemos o brilhante raciocínio do então Ministro: se a administração pública é formada por brasileiros (simples e confiantes), por que ela tem como características a desconfiança e a complicação? A resposta é óbvia, a culpa é da gravata! Símbolo da complicação (de vesti-la) e da desconfiança (é uma forca disfarçada).

    Ao se dar conta das reais intenções de Hélio Beltrão, o Governo Militar entrou em pânico, vendo a ditadura (dos militares e da gravata) próxima do fim.

    Com os estragos causados, os militares, pressionados e sem poder político para reverter a situação, foram a obrigados a iniciar a transição das gravatas para um governo civil.

    O comando do Ministério da Desburocratização, por exemplo, foi entregue a Paulo Lustosa, deputado federal pelo ARENA e pelo partido sucessor – o PDS. Este partido era notório por ser integrado por grandes antiburocratas, como José Sarney, Paulo Maluf, ACM, Fernando Collor e Jorge Bornhausen.

    Com o fim do PDS (a chamada diáspora partidária), que espalhou os citados políticos por diversas legendas, finalmente, o país encontrava o modelo ideal de desburocratização da Administração Pública: a descentralização da direita. Com o sucesso da transição para um governo civil devidamente engravatado, o Ministério da Desburocratização foi extinto em 1986.

    Era o fim do sonho de Hélio Beltrão. Mais uma vez a gravata triunfava e continuava sua caminhada de destruição pela história.

    A trajetória dos dois últimos presidentes do país só ajuda a comprovar o fato. Sem gravatas, dois típicos brasileiros simples e confiantes, na poética fala do injustiçado Hélio Beltrão.

    FHC lia Marx e Gramsci; foi exilado; foi aposentado compulsoriamente pelo Regime Militar, por suas idéias subversivas. Depois, de gravata, ajudou a fundar o PMDB, a fundar o PSDB e a afundar o Brasil (Sem ser injusto, é preciso reconhecer que este último feito ele conseguiu quase que sem ajuda).

    Lula foi engraxate, office-boy, operário e sindicalista; organizou greves gigantescas e foi preso pelo governo militar (naquela época, um atestado de idoneidade). De gravata, foi o deputado federal mais inoperante da história deste país. Como presidente, a gravata apertada e a falta de pescoço impediram-no de virar a cabeça para ver, da janela do Palácio do Planalto, o que acontecia nos gabinetes espalhados por Brasília.

    Prova de que os problemas de seu governo têm causa na gravata, é que, quando está de folga e não a usa, até que faz coisas legais. Bons exemplos são a descoberta da camada pré-sal, num banho de mar durante uma de suas trinta férias anuais, bem como os divertidos churrascos semanais na granja do torto, com muita cerveja e futebol.

    Diante de tudo que foi dito, ficou evidente que a História é repleta de homens que, ao colocarem a gravata, tornaram-se grandes ditadores. Adolf Hitler, Ricardo Teixeira e Charles Chaplin são só mais alguns exemplos.

    Espero que o texto tenha alertado vocês, caros leitores, para o perigo que nos ronda 24 horas por dia. Os homens de gravata, como juízes, advogados, promotores, executivos, garçons e mordomos, controlam nossa vida sem que percebamos.

    E para os que apenas estão rindo ou achando sem graça essa suposta fantasia sobre as “inofensivas” gravatas, não custa lembrar o caso do agricultor e cineasta John de Bello.

    Em 1978, Bello fez um filme mostrando um selvagem ataque de vegetais9 a seres humanos… As pessoas riram. Em 1988, 7 milhões de tomates assassinos retornaram10, atacaram novamente11 e comeram a França12, resistindo a todos os esforços para expulsá-los… Ninguém está rindo agora. Este é um texto sobre gravatas malignas.

    O recado está dado.

    PS: Com a extinção do Ministério da Burocratização foi criado o Programa Federal de Desregulamentação, este sim um nome autoexplicativo.

     

    Lueba.

    [1] http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,senado-rejeita-fim-do-uso-de-terno-e-gravata-no-congresso,283387,0.htm
    [2] http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u302661.shtml
    [3] http://www.releituras.com/joaocabral_dificil.asp
    [4] http://www.releituras.com/joaocabral_oovo.asp
    [5] http://www.algumapoesia.com.br/poesia/poesianet001.htm
    [6] http://www.amren.com/ar/2008/07/03b-jimmy_wales.jpg
    [7] http://www1.folha.uol.com.br/folha/treinamento/hotsites/ai5/personas/helioBeltrao.html
    [8] www.thalesdeazevedo.com.br/1979/191079_A%20Abolicao%20da%20Gravata.doc
    [9] http://www.imdb.com/title/tt0080391/
    [10] http://www.imdb.com/title/tt0095989/
    [11] http://www.imdb.com/title/tt0099935/
    [12] http://www.imdb.com/title/tt0102210/

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    2 Comments »

    • lueba said:

      faltou os links pow…onde tinha as notas de rodapé era pra linkar os sites

    • spirogyro said:


      Ela é a forca portátil
      mais fácil de manejar
      moderna, bem colorida,
      para a vítima se alegrar
      é um processo freudiano
      para a autopunição
      com o laço no pescoço
      e a fé no coração

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