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Entrevista com Sandney Farias, Vocalista e Guitarrista da Misantropia!

 

Eu acredito que quem acompanhou a cena punk/hardcore do final dos anos 90, começo dos anos 00 viu alguns shows dessa banda. Era uma época em que se rendiam bons frutos e que contava com a presença engajada de pessoas que acreditavam ser possível realizar shows, muitas vezes colocando grana do próprio bolso para ver a coisa render. E com certeza muitas dessas pessoas que viram o show da banda sentiram sua força e sua presença. O nome dessa banda é Misantropia.

 

 

 

Misantropia é uma verdadeira instituição do hardcore alagoano, e por que não dizer? Do hardcore nacional, e o vocalista, guitarrista e compositor Sandney Farias e companheiros de banda continuam conseguindo fazer a coisa funcionar, há cerca de 18 anos.

 

Segue a entrevista com o indivíduo mais respeitado por quem acompanhou os shows da banda em Maceió, uma amostra de como ele pensa e de como suas idéias repercutem no som da banda. O tempo passou, os rostos ficaram diferentes, as barrigas cresceram mas a Misantropia não desacelerou, e continua dando uma verdadeira aula de hardcore para muita banda iniciante.

 

E você vai poder ver a banda voltar a ação no show de domingo, com um baterista novo, figura conhecida e admirada do hardcore alagoano, chamado Ives Toledo. O show de domingo conta ainda com as bandas The Biggs (SP), The Baggios (SE) e Baztian. Algumas palavras para você se instigar pra ir:

 

Bruno Jaborandy: Conta para a gente uma história resumida da Misantropia…

 

Sandney Farias: A Misantropia é uma banda que nasceu em junho de 1991 com o intuito de mudar o mundo. Não conseguimos mudá-lo, mas durante esse tempo de existência aprendemos muito, quebramos nossa cara várias vezes, fizemos várias amizades e descobrimos que fazer o que você gosta sem se preocupar com o retorno financeiro, com fama e/ou reconhecimento é algo que da um prazer imenso.Continuamos acreditando que a forma como nos relacionamos em sociedade e o sistema no qual vivemos precisar mudar, mas aprendemos que o esforço necessário para provocar essa mudança não virá apenas de acordes de guitarras e nem muito menos das palavras que pronunciamos. Um mundo livre, fraterno, baseado em princípios libertários e autogestionário exige uma evolução muito grande de cada ser que habita esse planeta, estamos nessa luta buscando evoluir enquanto indivíduos e a Misantropia é uma parte importante desse processo.

 

BJ:Vocês estão há quase 20 anos fazendo parte do underground alagoano. Qual a receita para continuar na atividade?

 

SF:Acredito que o segredo da longevidade da banda está associado à forma como a encaramos. A Misantropia é extremamente importante para nós, um meio pelo qual colocarmos para fora o que sentimos e nunca nos preocupamos demasiadamente com o dia de amanhã enquanto banda. Há um respeito muito grande entre os integrantes, independente dele estar na banda há 15 anos ou um dia, fazemos a coisa de coração e isso facilita a nossa caminhada. Dificuldades e problemas existem, mas preferimos focar naquilo que nos realiza.

 

BJ:A Misantropia é a banda mais importante para o hardcore alagoano, você sente que a banda influenciou o surgimento de novos grupos no estado?

 

SF:Com certeza somos a banda de hardcore alagoana que há mais tempo está na ativa, mas soa estranho para mim, e creio que para os outros integrantes, pensar que somos a mais importante dentro do cenário local. Tivemos e temos grandes bandas que fazem um som de qualidade na cena hardcore alagoana – não só nela, que foram e são importantes para que a coisa toda funcione e sobreviva.  Algumas pessoas que conhecemos e integrantes de bandas com as quais já tocamos nos falaram que a Misantropia era uma influência para elas. Ficamos felizes quando alguém nos fala isso, também ficamos um pouco sem jeito, mas entendo isso como um ciclo contínuo de retroalimentação. Fomos influenciados e motivados por outras bandas, por ideias e ideais, felizmente de alguma forma também participamos como um agente nesse ciclo.

 

BJ:Como era ser punk no começo da década de 90?

 

SF:Não era algo fácil, como creio que ainda não é hoje em dia. Uma coisa é você rasgar uma calça, colocar um moicano e sair dizendo que é punk, outra coisa é você "ser" punk – mas vou evitar analisar a questão pelo lado filosófico.

O que percebo hoje em dia é que usar um moicano ou ter uma banda já é algo que os pais acham bonitinho, aceitam e apóiam – não tenho nada contra isso e adoraria ter contado com o apoio de todos lá em casa. Na nossa época não era assim. Fora o Júnior, cuja mãe ajudava na hora de levantar o moicano, a maioria da galera já encontrava resistência dentro de casa. Passei muitos anos trocando poucas palavras com meu pai, sempre que ia cortar o cabelo ele fechava a cara para o meu lado. No colégio algumas pessoas me evitavam, como eu andava de coturno e com vários bottons alguns professores também me marcavam. A mãe de um amigo meu o proibiu de andar comigo, pois eu era má influencia, apesar de sermos amigos de infância e ela conhecer a minha família. Mas algumas pessoas também se aproximavam, porque de alguma forma o visual chamava a atenção. Havia um certo preconceito como ainda hoje há, só que acredito que o visual já se tornou lugar comum. Moicano, piercing e tatuagem já não assustam tanto quanto assustavam antigamente.

 

BJ:Que outras bandas que fizeram parte do hardcore alagoano você citaria como importantes para o movimento ?

 

SF:Vou responder a questão considerando a cena hardcore e não o movimento punk/anarquista. Não posso deixar de citar o Leprosário, creio que uma das primeiras bandas punks aqui de Alagoas – que teve o Nino do Discarga em uma de suas formações. Eles são contemporâneos da Karne Krua e fizeram parte de um grupo de pessoas que movimentaram muito a cena local na década de 80. Ainda tive a oportunidade de assistir a um show deles, também conheci e troquei ideais com o vocalista da banda. Sei que na época deles tivemos bandas como Ejaculação Precoce e Acracia. A Living in the Shit, praticamente começamos na mesma época, que tocava um hc bastante furioso e original é outra banda que deve ser citada. Não há como esquecer a clássica música deles Vivendo em Maceió. Temos também a Mental Problems de onde saíram o Marcelo e o Alvinho Cabral. Tem a Sinsinhor que foi/é uma banda que sempre batalhou muito também para se manter na ativa, que se não me engano gravou dois CDs e durante muito tempo organizou vários eventos na cidade. Mais recentemente, já do século atual, temos a Sleep Out, General Zorg, Full Line, Mutação e a Contra. O que acho interessante no caso da Contra é que além do som ela trouxe um lado ideológico, de organização e de movimentação muito forte que rendeu bons frutos, além de ter influenciado várias iniciativas que surgiram depois.

 

BJ:Você tem acompanhado os documentários mais recentes sobre o punk/hardcore, como os brasileiros Botinada e Guidable, e os gringos, American Hardcore e Punk Attitude?

 

SF:Já assisti ao Botinada e ao American Hardcore, mas ainda não vi o Guidable e o Punk Attitude. É muito bom ver pessoas que estão na luta há tempos contando um pouco do que viveram e vivem. Outro dia até viajei na ideia de produzirmos algo que levantasse um pouco da história da cena local. Gostaria de saber por onde anda o pessoal do Leprosário e de outras tantas bandas que tocaram os primeiros acordes distorcidos aqui em Alagoas.

 

BJ:Você acompanha as notícias sobre política no Brasil e no mundo?

 

SF:Eu procuro me manter informado. Como trabalho com internet passo boa parte do tempo navegando e sempre estou atento as notícias. No entanto confesso que a política nacional e/ou mundial não são os meus assuntos prediletos, mas presto muita atenção ao que acontece ao meu redor.

Há muito tempo que eu não acredito nesse sistema, não acredito nos políticos e na sua preocupação com o nosso bem estar. Na realidade somos todos parte de uma grande engrenagem – como diria a banda Restos de Nada- somos todos escravos de uma balde de lixo – que sustenta tudo isso e que infelizmente ainda vai demorar muito para mudar.  Nós nos acostumamos com isso tudo, a enganarmos e sermos enganados. Infelizmente para boa parte da humanidade não é possível vivermos de uma forma diferente. Acomodamo-nos com a forma como vivemos há muito séculos e com a caixinha que já vem preparada para vivermos dentro dela.

 

BJ:O que você acha dos novos movimentos musicais e de estilo que surgiram se dizendo inspirados pelo punk, como o emo?

 

SF:Tenho uma fita de um show do Cólera na qual o Redson fala mais ou menos o seguinte: O nosso maior inimigo não são as pessoas que escutam um som diferente do nosso, eu concordo com ele. Há vários estilos musicais dos quais eu não gosto, várias bandas que eu acho uma porcaria mesmo elas se dizendo inspiradas pelo punk. O que faço é não escutar bandas cujo som eu não curto. Não gostar de um determinado estilo musical não significa que provavelmente não irei gostar das pessoas que curtem aquele estilo.

 

BJ:Qual a expectativa para o show do dia 17?

 

SF:Cara são as melhores possíveis. Será praticamente o nosso primeiro show com o Ives, ele tocou na despedida do Wagner no estúdio do Pedrinho, mas será realmente o primeiro show com ele.  Estamos ensaiando muito. Ontem, 07/01, ensaiamos quase duas horas para passar todos os sons e na semana que vem teremos mais uma maratona dessas. Vamos aproveitar também para divulgar nosso CD, afinal desde que o lançamos fizemos poucos shows. Além disso, estou muito feliz por ver novas iniciativas surgindo (Coletivo PopFuzz e FVM Produções), pessoas se organizando e fazendo as correrias. Sempre senti saudades dos tempos de Verde HC e ultimamente elas ficaram ainda maiores.

 

BJ:O que você acha da cultura de coletivos, que vem crescendo no Brasil?

 

SF:Quando fomos tocar em Recife no ano passado estava trocando ideias com um amigo nosso e falava a ele que deveríamos procurar fortalecer as nossas relações com base nas afinidades que temos, deixando de lado nossos pontos de divergência – afinal nem sempre vamos concordar em tudo. Acredito que os coletivos surgem a partir da afinidade existente entre os seus integrantes que procuram se agrupar visando uma maior capacidade de mobilização e organização. Sendo assim, quando as propostas desses grupos são positivas e construtivas, a disseminação e proliferação dessa cultura é algo que tende, na pior das hipóteses,  a gerar benefícios para os indivíduos que fazem parte do coletivo. Tenho percebido também que os diversos coletivos estão se integrando, unindo forças e aumentando ainda mais a capacidade de articulação. Raul Seixas já dizia: sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só, mas um sonho que se sonha junto é realidade.

 

BJ:Para terminar: que conselho você daria para um garoto que começou a ouvir hardcore e que conseguiu ganhar uma guitarra?

 

SF:Se eu estivesse no lugar desse garoto a primeira coisa que faria seria tentar tirar os sons das bandas que curto, aproveitaria também para ter umas aulas e aprender a tocar guitarra para não chegar aos 35 me achando um péssimo guitarrista. Mas o principal, o que está acima de tudo, é você procurar conhecer o que está por trás da ideia do som que você curte. Não sou um xiita do tipo que acha que todo som tem que passar uma mensagem séria, mas acredito que quando você se envolve com algo, quando você vai levantar uma bandeira ou falar que se insere em determinado contexto deve saber o que defende. É muito fácil falar frases feitas, ser um papagaio, reproduzir idéias, mas provocar mudanças é extremamente complicado. Para mudar o mundo ao seu redor é necessário viver uma revolução diária dentro de você. Como diz uma música nossa tocada poucas vezes: a revolução não é um show de hardcore.