HominisCanidaee – Entrevista Carlos Dias (Carlinhos)

Seguindo a série de entrevistas que estamos fazendo sobre figuras do mundo da música que influenciaram ou influenciam boa parte das bandas e pessoas que acompanham o Hominis. Se alguem quiser sugerir entrevista, chega la no blog e manda na caixa de mensagem.
 
O Paulo Marcondes fez uma entrevista com o Carlinhos Dias, da Polara, Againe, Caxabaxa e diversos outros projetos que você encontra la no blog pra download…


Provavelmente você já ouviu alguma música de Carlos Dias (Carlinhos). Não? Againe, Polara, Albertinho dos Reys, Caxabaxa, Diluentes, Tube Screamers? Te
m certeza? Em uma entrevista feita por e-mail, ele falou sobre as bandas, o que curte da cena atual, projetos futuros, se againe e polara irão voltar um dia e etc. Saca só:

 

1) Quantas bandas você já teve? Eu consigo lembrar do: tube screamers, againe, polara, albertinho dos reys, caxabaxa, walter e reys…

Olha, a contar do primeiro show, ou desde que mudei pra sao paulo em 88? Se for desde criança já forma muitas… Spektro, que era de heavy metal,isso tipo 85, o Esquem em Poa essa época era bem precário, só festival de escola, festa de dia das mães essas coisas…Depois cortei o cabelo em 87 pra poder tocar numa banda de hardcore , isso em Poa ainda….Mudei pra São Paulo em 88, andando de skate na rua conheci uns caras que tinham uma banda que tirava uns covers de anthrax, metallica etc… Toquei com eles por um tempo também. A banda não tinha nome, chegamos a tocar em um dos festivais do colégio equipe e mais alguma coisa. Eles seguiram mais tocando um deth extremo e eu sai, pq minha pegada era mais crossover, metal punk, etc… E também outras coisas da época que curtia tipo alien sex fiend, as coisas da sub por que tocava no programa do Kid Vinil… Esqueci uma parada. Em 90, toquei em uma banda chamada megaforce,de thrash… E a banda em Poa se chamava ridiculamente os sexomaniacos, e era tipo punk nacional, tipo influenciado pela coletânea ataque frontal,vikings are comig e punk finlandes. Conheci uns outros caras e montamos o Tube Screamers,gostavam só de Dag Nasty, Descendents, Melvins,e aquela parada todo que rolava la por 91,92…

 

O Tube Screamers foi a primeira banda de fato, gravar fitinha com capa, viajar pra outros estados etc. Trilhando por um caminho difícil porque a única banda que tinha no começo mas parecida com a gente era o Pinheads de curitiba.. Éramos banda Irmã do Muzzarelas de campinas, que nos proporcionaram bons shows, boas amizades. Em 95, montamos ao Againe, com a saída do Rubens,seguimos abanda colocando o Cesinha lost e o Fernando na outra guitarra…Com o Againe ainda existindo precariamente montei o Polara junto com o Rafael Crespo e o Sato. No começo porque tinha bastante musica o Againe meio parado, por causa de compromissos dos outros…. Ai o Polara seguiu um tempo, mas sempre naquelas de que cada um morava num pico né? O rafa no rio eu aqui o sato em osasco, e o marinho aqui também, mas agente conseguia levar ate. Depois comecei agravar minhas coisas sozinho,o Caxabaxa foi um projeto com o Adriano e com o Bruno Galan… Tem também o Matheus Walter, com que eu toco quando vou pra porto alegre. Não tenho muita pretensão de montar banda,pelo menos com objetivos de cds, merchans, etc… Como me mudei pra floripa, sigo gravando minhas coisas, afinal musica faz parte de mim, ela acontece, e seguindo os conselhos do meu pai que era musico de não virar musico (risos).

2) De onde surgiu o nome Albertinho dos Reys?

Eh o meu nome. Mas naquela pegada de cantor que inventava um nome artístico e etc… Meu nome é Carlos Alberto dos Reis Dias.


3) Da cena independente atual, você acha que da para tirar algo? Não só do hardcore, do rock em geral

Olha, não querendo citar nada, mas em geral o que eh feito com o coração, com vontade de verdade eu curto mais do que o bem feito ou o bem tocado. Acontece que a intenção hoje é bem diferente… Uma galera já pegou o caminho aberto e chega querendo sucesso de um dia pro outro.. normal, as vezes ate acontece, mas é uma coisa fugaz,talvez mais a ver com os tempos de hoje… O resolve “ah sou artista!” ou ate como ouvi de um cara uma vez… “po ta mais fácil viajar com arte do que montando banda”. Mesmo se da na arte, uma pá de “dizainerzinho” só porque tem uma mínima noção de preencher um espaço com algo meio legal se acha artista. O buraco eh mais embaixo… Na nossa época todo mundo tocava porque gostava sabe, sem quere desmerecer que vir ali e etc… Mas aquilo de fazer por amor que dava o toque que eu gostava se juntar fazer a parada, etc… Hoje em dia vem um Rick Bonadio e compra todas as bandas que ameaçam o sucesso da bola de vez. Deixando na mão os que estavam dando grana pra ele há pouco tempo… A banda nacional que eu acho mais legal é o ELMA.


4) Quem acompanha seus trabalhos há um certo tempo, pode notar que você se distanciou um pouco da música. Essa é a intenção mesmo? Focar nos seus outros trabalhos, como a arte?

O processo criativo é o mesmo, isso pra mim é uma necessidade, externar as o paradas que absorvo, seja em forma de musica, de arte, ou ate cozinhando se fosse o caso. A questão é conseguir sobreviver fazendo o que se gosta. Na a arte eu posso fazer o meu trabalho sem depender de ninguém, se eu tiver sozinho eu pego uma bic e saio desenhando, ou uma tela, o processo é mais solitário… Mas o mundinho próprio mesmo…A menos que seja um mural com varias pessoas… Talvez através da arte, através do aoseualcance, teve uma aceitação maior entre diferenciados tipo de pessoas, velhos, crianças, ricos pobres etc. Tem mais alcance, e também melhor retorno financeiro,afinal preciso pagar minhas contas.


Mudei pra Florianópolis tem dois anos e não toquei com ninguém lá, só sozinho hibernando no quarto. Ia lançar um disco no fim do ano passado, dois aliás, mas o cara que ia lançar deu pra trás pondo tudo a perder… Um disco de Albertinho dos Reys e um do Walter e Reys. Esse tipo de coisa da desanimo sabe? É coisa atrás de cosia a vida toda. Então optei por fazer eu minhas coisas, no tempo que der e pronto. Ou seja,estamos num momento de vários neo empresários, celulares e etc,existe essa facilidade hoje em dia nas comunicações que é inegável… É muito difícil voce se dedicar a algo tipo um disco, é um filho sabe,as musicas, a ordem e etc… Ai fica capengando o porquê nego que lança sei la o que, ou pra a fabrica musical…. Fica aquela coisa, o cara gosta, quer fazer pra quem gosta, mas na hora mesmo isso não é suficiente, e prefere dar preferência pra sub sei la o que! Então decidi por mim o que eu sempre fiz, tocar as coisas por mim mesmo, trampar, ganha grana, quando der com as minhas coisas, porque depende dos outros é complicado. O cara que eu mais confio nesse meio e acho firmeza é o Fred da submarine, e as coisas que ele lança, complementando sua pergunta de cima… Hurtmold, bodes e elefantes, as bandas dos meus amigos (risos).

 

5) O que você acha dessa coisa de download na cena independente do rock nacional?

Não entendi direito ,mas sou adepto, e também tudo que eu faço eu ponho pra download,em algum momento.

6) Uma coisa que sempre intrigou bastante os ouvintes do againe (principalmente no sem açúcar) e no Polara são as letras. Como elas eram escritas? Todo mundo que eu conheço e gosta das bandas, diz que elas são bem urbanas.

Olha, sou de porto alegre, sou praticamente um caipira na cidade grande. Essas letras a maioria, foram escritas em momentos refletindo isso, a minha visão da cidade. No caso do againe ja vinha desde antes essa temática. Nunca soube escrever letra de protesto, então queria uma coisa da cidade, dos relacionamentos, das amizades, etc. Hoje em dia que mudei pra praia, que começo a analisar isso tudo… Talvez daqui um tempo tenha mais a dizer, porque isso ai foi como se fosse uns vômitos, uns throw ups. Tipo escrevendo no ônibus, na casa dos outros, nos banheiros, sempre que lembrava algo,nem que fosse duas palavras, um expressão,ainda bem que tenho esses registros que dizem muito sobre mim….


7) Todos os fãs do againe e do Polara se sentem "órfãos". Há alguma possibilidade dessas bandas voltarem?

Sei la. Voltar não, um show ou outro talvez de tempos em tempos todo mundo fala…Mas se for isso é só uma reunião.

 

8) O que você anda escutando de música?

Depois do torrent e dos blogs e da net tudo mudou né? Antigamente pra você gostar de algo, tinha que compra o disco. Hoje em dia ta ali no itunes ou aonde for, e muita gente com vergonha do shuffle… Eu realmente tento ouvir de tudo, vivo por épocas, o de sempre, e o que nunca tive acesso… É isso.

9) Eu queria agradecer pela entrevista e pelo tempo cedido, de coração. Aquela hora clássica: shows, contato, divulgação…

Fiz um soundcloud do Albertinho, show não tem nada, ta saindo meu site www.aoseualcance.com, aonde pretendo por uma parte da musica juntando minhas coisas todas. Estou trabalhando num documentario da vida do meu pai que era musico tambem… A coisa mais massa que apareceu foi uma fita k7 de 68, que ta postada aqui.

HominisCanidaee – Entrevista Jair Naves e EP Araguari…

Opa, foi mal a demora. Passamos por turbulências com o blogspot, mas estamos de volta com um "e" a mais, agora é HominisCanidaee e começamos com uma entrevista/resenha feita pelo Paulo Marcondes, um HominiCanidae nato.

Jair Naves é um músico (mesmo que ele não goste desse título, ou ao menos não gostava) e com esse EP mostrou uma evolução enorme em seu trabalho. Tanto no vocal (dessa vez, limpo, sem gritos e acompanhado por Júlia Frate, cantora) quanto em suas letras que estão de uma poesia enorma e com uma sonoridade bem diferente de tudo que todos esperavam. Algo calmo, mais fácil de se digerir do que o Ludovic (ex-banda do Jair) a qual comparações não serão feitas.

 

Se me pedirem pra classificar ou dar uma dica do que o som dele se parece, eu diria: "pega um pouco de Joy Division na época do Unknown Pleasures, de Dolores Duran, Walter Franco e Maysa. Agora mistura tudo, é, lembra um pouco." Como foi dito no post do Hominis: Não é rock. Não é folk. Não é samba. Não é moda de viola. É apenas o melhor letrista da atualidade em um projeto sincero e visceral.
 

Download do Ep: Jair Naves – Araguari EP (2010).rar

Demorou, mas segue agora uma entrevista com o próprio Jair Naves, falando sobre música, as dificuldade de um trabalho solo, sobre o mercado independente, sobre a vida, da maneira mais direta possivel…

1. No começo do EP, existe um pedaço do filme "O caso dos irmãos Naves" há algum parentesco com eles?
Essa é uma pergunta que sempre me fazem e eu nunca sei exatamente o que responder, já que eu mesmo continuo com essa dúvida. Pelo que eu consegui apurar, havia uma ligação da família de Sebastião e Joaquim (as vítimas do ocorrido) com o pessoal da minha avó paterna, mas afirmar que eles eram meus parentes seria meio abusado da minha parte. O que me fez mencionar a história deles na introdução do EP não foi só a ligação com a cidade e a coincidência (ou não) do sobrenome, mas também a intenção de prestar uma homenagem a eles e de trazer o caso para o conhecimento daqueles que se interessam pelo que eu faço.

2. Você com esse projeto conseguiu trabalhar de maneira diferente nas letras. Lembro de uma vez que li que tinha planos em se expor menos.Acha que conseguiu isso em Araguari?

Infelizmente não (risos). Quer dizer, tentei trabalhar melhor com metáforas e falar um pouco mais da vida de outras pessoas, coisa que eu não fazia muito antigamente. Por outro lado, tratei de assuntos íntimos muito abertamente, com uma transparência até maior do que eu costumava utilizar no passado.

3. Em Araguari II (meus dias de vândalo) existe um verso que diz "minha reza de ateu". O que é Deus para você?

Olha, você realmente pegou pesado nessa. Eu poderia ficar escrevendo durante horas e ainda assim não conseguiria definir o meu conceito de Deus. Eu tenho uma visão muito pessoal a esse respeito, uma teoria que eu formulei de acordo com as experiências que eu tive, as perdas que eu sofri, os rumos que pessoas próximas a mim deram às suas vidas e etc. Sobre a música em si, a estrofe em que esse verso se encontra é toda sobre desespero, esgotamento, falta de perspectiva, questionamento sobre o futuro e angústias dessa natureza. Quando eu usei essa imagem, quis passar a impressão de alguém que apela para o último dos recursos – a tal “reza de ateu”. Tem uma conotação religiosa, obviamente, mas não é exatamente sobre crer ou não na existência divina.

4. Como é sair de uma banda e ter um projeto solo? Digo, tomar conta de quase tudo sozinho?

Ainda estou estranhando um pouco. Passei metade da minha vida fazendo parte de bandas, é a primeira vez que trabalho assim, lançando discos sob o meu próprio nome. De qualquer forma, por enquanto eu não posso me queixar de nada. As pessoas estão gostando das músicas, os shows têm sido bons e a minha banda não poderia ser melhor. Tenho muita sorte por poder contar com esses músicos que tocam comigo, são pessoas em quem eu acredito muito e que abraçaram o trabalho com uma dedicação tão grande que chega a ser até comovente pra mim.

5. O que você considerou mais difícil neste ep? Compor, gravar, mixar, tentar desviar a ansiedade?
Tudo foi extremamente difícil, desafiador. Não só por eu ter trabalhado por conta própria na maior parte do tempo, mas também porque acho que nunca fui tão exigente comigo mesmo quanto dessa vez. Como eu não queria me repetir ou fazer aquilo que as pessoas esperavam de mim, levei muito tempo lapidando as músicas e letras. A gravação também foi complicada, tanto pela complexidade de alguns arranjos quanto pelo fato de eu ter introduzido muitos elementos com os quais eu ainda não estava muito habituado (sintetizadores, piano, muitos backing vocals, vozes femininas, samplers, etc). Na mixagem e masterização foi um pouco mais tranqüilo. Tive o privilégio de poder contar com o Renato Coppoli, um verdadeiro mestre do ofício, com quem aprendi muita coisa no pouco tempo que trabalhamos juntos. Quando já estava tudo pronto, tive que esperar um pouco para conseguir a liberação dos trechos de “O Caso dos Irmãos Naves” que foram utilizados em “Araguari I (Meus Amores Inconfessos)”. A ansiedade foi realmente enorme, eu não tinha idéia de como as pessoas iriam receber essas músicas, mas valeu a pena passar por tudo isso. Com toda a franqueza, acredito que esse é o meu melhor trabalho até o presente momento.

6. Onde foi parar a loucura do vocalista da Ludovic? Ela persistira ao vivo mesmo com um som considerado mais "calmo"?
Acho que foi parar nas músicas em si. Acredito que esse EP contém algumas das minhas composições mais ousadas, de estruturas menos óbvias, mais “experimentais” no sentido literal do termo. Sobre os shows, difícil dizer. Não tenho qualquer interesse em repetir coisas que eu fiz no passado, mas ao mesmo tempo eu tenho minha personalidade, meu jeito de fazer as coisas, características das quais eu não vou me livrar nunca, mesmo que eu queria. Cabe a vocês ir aos shows e tirar suas próprias conclusões, creio eu.

Video de Araguari II no show de Lançamento do EP na festa da Travolta Discos


7. Voce acredita que o público do Ludovic vai somar ao seu projeto solo? Pensou nisso quando fez o EP? Ou isso não faz parte do processo pra voce?

Nunca penso nisso enquanto componho. Acho muito perigosa essa preocupação com o que as pessoas vão pensar – aliás, não só perigosa, mas sem sentido. É impossível prever a quem você vai ou não agradar, então a única coisa que você pode fazer é ser sincero consigo mesmo, se esforçar ao máximo em todas as etapas e depois torcer pra que alguém mais goste do resultado. A recepção por parte dos fãs do Ludovic tem sido muito melhor do que eu esperava. Enquanto eu estava gravando o EP, me parecia algo tão diferente de tudo que eu fiz no passado que me dava a certeza de que muita gente iria torcer o nariz. Mas foi o contrário disso, a resposta que eu tive foi surpreendentemente positiva. Fico feliz com isso, me dá segurança para explorar novos caminhos no disco que a gente tá gravando atualmente.

8. Reza a lenda que você não é muito a favor do download gratuito. Isso mudou?Qual a sua posição sobre o assunto musica livre na internet e essas coisas?!

Hoje em dia você precisa se adaptar a essa condição, não tem jeito. A regra atual do jogo é essa, o perfil de quem consome música mudou completamente, é preciso achar maneiras de usar essa nova conjuntura a seu favor. Para mim continua parecendo um pouco estranho, uma vez que o público e o mercado exigem gravações de boa qualidade, o que evidentemente custa um bom dinheiro, mas nem sempre quer pagar por isso – o que, pelo menos para músicos independentes, não é um quadro nada animador. Mas é assim que funciona, então o negócio é focar no lado positivo da coisa, pensar nas alternativas possíveis e seguir em frente.
9. Quais os planos com o projeto solo?! Pensa em sair do gueto e rodar mais o país?! Fale o que quiser pra quem quiser…
Os planos são de tocar o máximo possível, com quem nos chamar, em qualquer palco que nos receber. Fora isso, estamos gravando atualmente um disco "cheio", que deverá ter de 10 a 12 músicas inéditas, cuja previsão de lançamento é ainda para 2010. Estou muito empolgado com essa nova fase, espero poder contar com o apoio daqueles que me conhecem de meus projetos passados. Fora isso, muito obrigado a vocês pelo espaço. Tomara que a gente se encontre por aí em breve.

Fotos: Patrícia Caggegi

Originalmente Postado em: http://coletivonoize.blogspot.com/2010/03/hominiscanidaee-entrevista-jair-naves-e.html