Araguari, My Dear

Texto por: @lueba

 

Dois dos CDs que eu mais ouvi este ano de 2010 foram, na verdade, dois EPs: Araguari, do Jair Naves, e o trabalho de estréia da Black Jeans My Dear. Araguari já é sucesso da música independente nacional, e o segundo é um sucesso interno para nós do selo com o melhor gosto musical de todos os tempos, a Popfuzz Records.

 

Vou pular a introdução do EP do Jair Naves porque tem um monte de crítica legal espalhadas por sites e blogs, como aqui e aqui. No caso da Black Jeans My Dear, trata-se do projeto folk do nosso amigo @brunojaborandy, e esse primeiro EP traz cinco músicas gravadas no microfone do computador. Ele e um violão, de forma simples. Ah, no final de uma das músicas tem uma gaita esganiçada.

 

Se você já conhecia os dois ou for do tipo que já baixou antes mesmo de terminar de ler isto aqui, deve estar se perguntando o que tem a ver eu falar deles no mesmo texto. Mas relaxa que eu te respondo, é que os dois são os trabalhos mais sinceros do ano, do tipo que você ouve, se emociona e pensa “era disso que eu estava falando o tempo todo”.

 

Apesar da grande diferença da parte técnica entre os EPs (Um bem profissional e o outro bem caseiro), a temática das letras de ambos são muito parecidas. Amores perdidos e encontrados, nostalgia de uma adolescência distante(?), incerteza com o futuro, arrependimentos e hora de tomar uma decisão. No meu caso em particular, tudo isso se aplica um pouco ao meu ano de 2010, o que explica porque eu me identifiquei tanto com os CDs.

 

Toda vez que eu escuto Jair Naves cantar, em Araguari I,  “hoje sou eu quem cuido dos meus pais, e as crianças da nossa rua já não somos nós”, dá vontade de passar na rua em que eu morei dos 5 aos 23 anos de idade. E às vezes é o que eu faço, mudo o caminho e passo lá (é perto de onde eu moro hoje, então não é nenhum esforço tão heróico assim). E essa mesma nostalgia eu sinto quando escuto o Brunão falar, em Trocados, “é estranho e engraçado o que a juventude em cinco anos fez com meu sonhos, é no mínimo inusitado que eu me veja me afastando de todos que eu amava”. Dá vontade de ligar pra certas pessoas que não vejo há um tempão, mas eu não ligo (eu não consigo fazer um esforço tão heróico assim).

 

E depois, em Silenciosa, o Jair Naves vem com aquela de “Se não deu certo com a gente acho que nunca vai dar” e “Deve haver em tudo isso alguma lição, algo a ser aprendido, uma compensação para o quanto nós nos ferimos”. E o Brunão completa com “so i’ll spend the whole month locked in my room, and then i’ll spend the whole month looking for some girl who could spend the whole month with me in my bedroom”, em Hard Process. Mas se nunca mais vai dar certo, por que continuar procurando? escuta Garota do Molotov que dá pra entender, pode não aparecer mais o amor da sua vida, mas ainda dá pra acordar de madrugada e encontrar uma garota bonita fazendo brigadeiro e pedindo pra continuar. Pensando bem, ainda pode aparecer o amor da sua vida sim.

 

Então, depois de te mostrar esse vídeo aí em cima e falar sobre esses CDs pra você (aqui é você leitor, mas isso realmente aconteceu), aí você quer me falar de Otto? Nao dá. E se você estava se perguntando o que tinha a ver eu falar dos dois EPs no mesmo texto, agora você deve estar se perguntando porque além dos dois EPs eu estou falando de mim e falando mal do Otto, “porra, eu não quero saber de você, e não fala mal do Otto, hein, é o melhor cd do ano, vc tá de brincadeira?” Não estou, o pior é que não estou. Sinceridade, my dear. nem Recife nem Haiti, Araguari é aqui, Araguari não é aqui. Alagoas é o poder.

 

Então de novo, se você é do tipo que curte uma cerveja com os amigos no boteco terça à noite, que adora Elliott Smith, Bonnie Prince Billy e Smog, não vive sem telecine cult, ama futebol mesmo com seu time na Série D do Brasileirão, e não sabe se está muito novo ou muito velho pra arriscar tudo, acho que você está me imitando. Brincadeira (foi ruim essa, né?), se você é desse tipo aí que eu falei, ouve os EPs, você vai gostar. E se você não é, ouve também, nem que seja uma vez, depois você volta pro Otto.

 

E eu poderia escrever páginas e páginas sobre as outras músicas dos dois EPs, quantidade inversamente proporcional ao que tenho escrito na monografia da minha pós graduação, mas eu não estou com paciência pra nenhuma das duas coisas. É isso, União e Força. Como diria o Rodo (@rodolfollima) no release do EP da Black Jeans, “eu estou conversando com você, meu amigo, só que por alguma razão tem uma melodia nos acompanhando”.

 

 

Baixe aqui "Araguari – Jair Naves"

Baixe aqui "Primeiro – Black Jeans My Dear"

COBERTURA: CENA ATIVA

        Sábado passado (09/01) foi realizado o Cena Ativa. Repleto de garotos carecas e meninas sem sobrancelha, o evento aconteceu no K-Fofo e contou com shows das bandas Dom Pedriota e as Tatuagens de Pipoca, Demodée e Dad Fucked and the Mad Skunks.


        

Logo no início do evento, a comissão de analistas econômicos do Coletivo Popfuzz fez um estudo dos preços das bebidas e, com base no teor alcóolico de cada uma, opiniou que o whisky seria a bebida indicada para investimentos seguros e rentáveis. Investimos pesado na bolsas de valores em ações do professor e acabamos a noite sem um real.

        Mas voltando aos shows:

        

A primeira banda a subir no palco foi a Dom Pedriota. Já conhecidos no cenário local pela combinação Surf Music + Farda de Marinheiro, a banda animou o público com versões instrumentais de músicas dos mais variados estilos. Mas os garotos não ficaram calados o tempo todo, também teve espaço para músicas com vocal, incluindo um cover dos beatles. Quem sabe no carnaval eles troquem as roupas de marinheiro por umas fantasias mais coloridas e cantem umas marchinhas.


        

Em seguida aconteceu o show da Demodée, que era,  pelo que percebi da reação do pessoal, a banda mais esperada da noite. Foi possível ver um bocado de gente cantando as músicas, o que é sempre legal pra uma banda. Por conta do vocal  em português, muita gente para numa comparação fácil com o Los Hermanos, mas dá pra ver que a banda não segue o caminho dos barbudinhos, que diluíram quase todo o rock das suas canções. No meio do show foi anunciado que aquele era o último show do baixista e rolou aquela comoção entre a banda e os amigos.


        Fechando a noite, com a casa esvaziando e o dinheiro do whisky já esvaziado, veio ao palco a Dad Fucked. Sou parcial pra falar da banda por que sou amigão dos caras, mas não dá pra negar que o show deles sempre é, no mínimo, animado. Mesmo sem dois integrantes (estavam viajando), a banda botou pra dançar o resto do pessoal que esperou o show, com seu ska, hardcore, raggae etc. Além das músicas, sobrou espaço pro Rodolfo (vocalista) falar que o amor é a coisa mais bonita que existe, e que cada um que tivesse alguém do seu lado que amasse, desse a essa pessoa o valor merecido. Podem até dizer que foi mensagem de vocalista bêbado para os bêbados da platéia (tipo eu), mas foi bonito e emocionou.


        Fica os parabéns ao pessoal que promoveu o Cena Ativa pela iniciativa de realizar um show dedicado às bandas independentes alagoanas, e também pela ótima organização do evento. O Coletivo Popfuzz incentiva e apoia qualquer tipo de ação nesse sentido.


Obs: O único fato lamentável do evento foi a conduta de um senhor chamado Marcos Cajueiro, que atirou um copo de whisky nos olhos do vocalista da Dad Fucked. quase causando a cegueira do rapaz. Qualquer notícia do paradeiro do meliante, enviem para coletivopopfuzz@googlegroups.com.

Texto: Lueba

Fotos: Joana Calheiros

A Gravata e o Ministério da Desburocratização

Em 2008, houve uma tentativa – infelizmente fracassada – de livrar o Congresso Nacional das gravatas. Foi apresentado projeto de lei desobrigando o uso da gravata e paletó pelos parlamentares, como medida para economia de energia dos aparelhos de ar-condicionado. O projeto foi vetado rapidamente pela mesa diretora do Senado.

A primeira vista, podemos pensar que o veto do projeto1 se deu por questões puramente de elegância e formalidade. Mas há uma razão maior, que remonta aos tempos de Jesus Cristo. O tema é delicado e, por isso, constantemente abafado pela mídia. O que poucos têm coragem de revelar é o domínio exercido pela gravata sobre os homens.

Antes mesmo do surgimento da gravata, já havia um evangelho, sonegado tanto por cristãos como por judeus, e retirado da Bíblia durante o Concílio de Nicéia, que pregava o repúdio de Jesus ao acessório. Martin Scorcese retratou a história narrada nesse evangelho em seu polêmico filme “A última tentação de Henry Sobel”.

Por ser a única rede televisiva que não possui qualquer ligação com religiões, só a Record teve imparcialidade suficiente para apresentar o filme2 e provar, mais uma vez, que a Universal é a verdadeira representante do Senhor.

Sobre seu efetivo surgimento, conta-se que a gravata apareceu no século XVII, durante a guerra dos trinta anos, quando os mercenários croatas a serviço da França utilizaram uma tira no pescoço para diferenciar soldados e superiores. Os parisienses – sempre eles – acharam o adorno militar coisa finíssima e lançaram a moda.

Observando o efeito da gravata nas pessoas, mais especificamente em Luís XIV (ele mesmo, o radiante), Rousseau, com toda sua perspicácia, cunhou sua célebre frase: “L'Homme nait bon. C'est la société qui le transforme" (O homem nasce bom. É a gravata que o transforma).

E nem precisava ser um Rousseau para perceber que algo criado por mercenários e popularizado por parisienses não daria em boa coisa.

No entanto, patrocinado pelas elites engravatadas, Hobbes conduziu uma das campanhas publicitárias de maior sucesso de todos os tempos, glorificando a gravata e convencendo o mundo de que tudo era culpa do próprio homem.

Nas propagandas da campanha, foram imortalizados dois dos maiores slogans da filosofia política mundial: "Homo homini lupus" (O homem é a gravata do homem) e "Bellum omnium contra omnes" (É a guerra de todos contra a gravata). A campanha fez com que a peça do vestuário passasse de terrível vilã a vítima das atrocidades da humanidade, deixando de ser perseguida para ser protegida.

Durante um longo período, os críticos da gravata foram severamente reprimidos. A situação piorou quando a Igreja finalmente aceitou a teoria heliocêntrica e pensou ter dizimado todas as bruxas, pois eles passaram a ser os principais alvos da Santa Inquisição, para sorte de Galileu e de Minerva McGonagall.

Só no começo do século XX é que o movimento de conscientização contra a gravata voltou a tomar força. Um dos principais nomes da revitalização do movimento foi Mahatma Gandhi, que, ao libertar-se do pano no pescoço (ele era advogado), lutou até a morte pela causa. No entanto, a mídia mundial, distorcendo seus ensinamentos, fez com que tudo parecesse uma mera luta contra a colonização.

Aqui no Brasil também houve manifestações. Os efeitos malignos da gravata nas repartições públicas foram alvo de denúncias desde 1943, quando o poeta e então funcionário público João Cabral de Melo Neto, no manifesto “Difícil ser Funcionário”, em nome de todos os funcionários públicos, escreveu em tom de protesto: “Não me sinto correto/De gravata de cor”3.

Mesmo vítima de represálias, ele continuou sua luta por meio de mensagens espalhadas por sua obra. O “ovo de galinha”4, a que se refere no poema de mesmo nome, é uma clara metáfora para a peça do vestuário. Ainda mais direto é seu poema “cão sem plumas”5, comovente história de um homem que, por não usar a infame tira de pano, era tratado como animal pela sociedade. A crítica literária, flagrantemente corrompida, reduziu o texto a uma simples crítica social da pobreza às margens do Rio Capibaribe.

Em 1979, para combater a gravata, entra em cena Hélio Beltrão, pai da jornalista Maria Beltrão, que cobriu as férias dos apresentadores titulares do Bom Dia Brasil, em 2003, e, desde 2006, apresenta o Oscar junto do José Wilker (A Wikipédia, fundada por um homem de gravata borboleta6, desviou, em claro boicote, a atenção para sua filha).

Hélio Beltrão, com um audacioso plano para salvar o país das gravatas, ludibria o então presidente João Figueiredo, convencendo-o a instituir o Ministério da Desburocratização. Como Hélio Beltrão tinha votado a favor do AI-57, o general, inocentemente, acreditando que ele só queria colocar em prática outras idéias sem futuro, como os Juizados de Pequenas Causas e Estatuto da Microempresa, autorizou a criação da pasta.

E foi assim que, em 1979, foi criado no Brasil o Ministério da Desburocratização. O nome seria autoexplicativo caso estivéssemos em outro país.

Em uma de suas primeiras medidas, o Ministro da Desburocratização Hélio Beltrão aboliu a obrigatoriedade do uso da gravata nas repartições públicas, como relata reportagem do jornal “A Tarde”, de 19/10/19798.

O que a primeira vista parecia uma medida sem muita relevância, era claramente o ato de um homem obstinado a acabar com um dos maiores males que já assolaram a humanidade. E para os que acham que a medida só levou em consideração o conforto do vestuário, a seguinte frase do pai da apresentadora reserva do Bom Dia Brasil em 2003 prova o contrário:

  • "O brasileiro é simples e confiante. A administração pública é que herdou do passado e entronizou em seus regulamentos a centralização, a desconfiança e a complicação. A presunção da desonestidade, além de absurda e injusta, atrasa e encarece a atividade privada e governamental".

    Acompanhemos o brilhante raciocínio do então Ministro: se a administração pública é formada por brasileiros (simples e confiantes), por que ela tem como características a desconfiança e a complicação? A resposta é óbvia, a culpa é da gravata! Símbolo da complicação (de vesti-la) e da desconfiança (é uma forca disfarçada).

    Ao se dar conta das reais intenções de Hélio Beltrão, o Governo Militar entrou em pânico, vendo a ditadura (dos militares e da gravata) próxima do fim.

    Com os estragos causados, os militares, pressionados e sem poder político para reverter a situação, foram a obrigados a iniciar a transição das gravatas para um governo civil.

    O comando do Ministério da Desburocratização, por exemplo, foi entregue a Paulo Lustosa, deputado federal pelo ARENA e pelo partido sucessor – o PDS. Este partido era notório por ser integrado por grandes antiburocratas, como José Sarney, Paulo Maluf, ACM, Fernando Collor e Jorge Bornhausen.

    Com o fim do PDS (a chamada diáspora partidária), que espalhou os citados políticos por diversas legendas, finalmente, o país encontrava o modelo ideal de desburocratização da Administração Pública: a descentralização da direita. Com o sucesso da transição para um governo civil devidamente engravatado, o Ministério da Desburocratização foi extinto em 1986.

    Era o fim do sonho de Hélio Beltrão. Mais uma vez a gravata triunfava e continuava sua caminhada de destruição pela história.

    A trajetória dos dois últimos presidentes do país só ajuda a comprovar o fato. Sem gravatas, dois típicos brasileiros simples e confiantes, na poética fala do injustiçado Hélio Beltrão.

    FHC lia Marx e Gramsci; foi exilado; foi aposentado compulsoriamente pelo Regime Militar, por suas idéias subversivas. Depois, de gravata, ajudou a fundar o PMDB, a fundar o PSDB e a afundar o Brasil (Sem ser injusto, é preciso reconhecer que este último feito ele conseguiu quase que sem ajuda).

    Lula foi engraxate, office-boy, operário e sindicalista; organizou greves gigantescas e foi preso pelo governo militar (naquela época, um atestado de idoneidade). De gravata, foi o deputado federal mais inoperante da história deste país. Como presidente, a gravata apertada e a falta de pescoço impediram-no de virar a cabeça para ver, da janela do Palácio do Planalto, o que acontecia nos gabinetes espalhados por Brasília.

    Prova de que os problemas de seu governo têm causa na gravata, é que, quando está de folga e não a usa, até que faz coisas legais. Bons exemplos são a descoberta da camada pré-sal, num banho de mar durante uma de suas trinta férias anuais, bem como os divertidos churrascos semanais na granja do torto, com muita cerveja e futebol.

    Diante de tudo que foi dito, ficou evidente que a História é repleta de homens que, ao colocarem a gravata, tornaram-se grandes ditadores. Adolf Hitler, Ricardo Teixeira e Charles Chaplin são só mais alguns exemplos.

    Espero que o texto tenha alertado vocês, caros leitores, para o perigo que nos ronda 24 horas por dia. Os homens de gravata, como juízes, advogados, promotores, executivos, garçons e mordomos, controlam nossa vida sem que percebamos.

    E para os que apenas estão rindo ou achando sem graça essa suposta fantasia sobre as “inofensivas” gravatas, não custa lembrar o caso do agricultor e cineasta John de Bello.

    Em 1978, Bello fez um filme mostrando um selvagem ataque de vegetais9 a seres humanos… As pessoas riram. Em 1988, 7 milhões de tomates assassinos retornaram10, atacaram novamente11 e comeram a França12, resistindo a todos os esforços para expulsá-los… Ninguém está rindo agora. Este é um texto sobre gravatas malignas.

    O recado está dado.

    PS: Com a extinção do Ministério da Burocratização foi criado o Programa Federal de Desregulamentação, este sim um nome autoexplicativo.

     

    Lueba.

    [1] http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,senado-rejeita-fim-do-uso-de-terno-e-gravata-no-congresso,283387,0.htm
    [2] http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u302661.shtml
    [3] http://www.releituras.com/joaocabral_dificil.asp
    [4] http://www.releituras.com/joaocabral_oovo.asp
    [5] http://www.algumapoesia.com.br/poesia/poesianet001.htm
    [6] http://www.amren.com/ar/2008/07/03b-jimmy_wales.jpg
    [7] http://www1.folha.uol.com.br/folha/treinamento/hotsites/ai5/personas/helioBeltrao.html
    [8] www.thalesdeazevedo.com.br/1979/191079_A%20Abolicao%20da%20Gravata.doc
    [9] http://www.imdb.com/title/tt0080391/
    [10] http://www.imdb.com/title/tt0095989/
    [11] http://www.imdb.com/title/tt0099935/
    [12] http://www.imdb.com/title/tt0102210/