Confiram a Cobertura da Tour NE Fora do Eixo pela Sirva-se
Por Daniel Bento e José Luiz
Fotos por Vanessa Mota
É sempre bom poder ver que com a simples vontade de se organizar e agir, as coisas caminham. Essa ação organizada é o que constitui a base conceitual do Circuito Fora do Eixo, uma rede de coletivos espalhados pelo país, focada na cooperação mútua e que busca romper os limites de uma cena independente dispersa e sem grande interatividade.
A partir dessa idéia, o grupo realiza turnês com bandas que fazem parte do casting da agência, visando um trabalho em conjunto com o intuito de ampliar contatos e dar vazão ao que vem sendo produzido fora do esquema Rio – São Paulo, além de atrelar ao seu contexto diversas ações, como a idéia de economia solidária, na vontade de fortalecer os propósitos de uma transformação sócio-cultural com um direcionamento mais relacionado ao campo da arte.
Em Maceió, o coletivo Popfuzz, foi recentemente associado a esse circuito, e hoje é o representante alagoano nessa rede cooperativa. Realizadores do Festival Maionese, o coletivo busca nesse contato, uma boa oportunidade de movimentar o cenário local, que ainda é muito carente de eventos alternativos, e expandir as fronteiras a partir do conceito explorado pelo Fora do Eixo.
A turnê, organizada por um aglomerado de coletivos nordestinos, trouxe em seu line up uma mistura muito boa, mostrando música produzida em diferentes partes do país, e contando ainda com o apoio direto de coletivos de outras regiões que também fazem parte do Circuito, criando uma interação que se mostra muito necessária e fomenta uma difusão de cultura no meio independente.
No roteiro, oito cidades a serem percorridas em oito dias pelas bandas Burro Morto (PB), Macaco Bong (MT) e Porcas Borboletas (MG). Maceió não ficou de fora e foi contemplada, na noite de ontem, com uma apresentação animada e de grande qualidade.
A encarregada de abrir o show foi a alagoana Cross The Breeze. O público e a banda ainda estavam meio tímidos, o que não trouxe tanta empolgação para a apresentação dos caras. O som é algo na linha de Sonic Youth, muito ruído e microfonia, mas sem a intensidade dos americanos. Tocaram ainda um pouco de Jesus and Mary Chain e deixaram a impressão de que ainda podem amadurecer bastante e talvez despontar como uma expoente local no estilo. A banda não fez feio, mas um pouco de presença de palco não faria mal a eles.
Os paraibanos da Burro Morto vieram logo depois, e apresentaram um som instrumental muito bem ensaiado e fortemente influenciado por ritmos brasileiros e africanos, misturados ao bom rock’n roll.
O resultado é algo bem dançante, que faz todo mundo começar a se mexer. O público chegou mais junto do palco e as coisas foram melhorando e esquentando, as luzes davam um clima meio psicodélico, completando o ambiente. A banda fez jus ao nome que já conseguiu conquistar no cenário nacional e demonstrou com competência que, ainda hoje, é possível criar e tocar um som com uma forte carga de elementos regionais, sem soar chata e repetitiva. Engraçado que depois de já rodar boa parte do Brasil só agora o Burro Morto veio tocar por aqui em Maceió, estado quase vizinho.
Dentro do show, ainda pudemos conferir de perto alguns temas que estarão no próximo disco deles. Com patrocínio do Projeto Pixinguinha, e com pinta de superprodução, o disco deve sair agora em fevereiro. É esperar para crer, mas que a parada tem tudo para firmar a banda no cenário da música contemporânea brasileira, com certeza tem!
Em seguida a apresentação mais performática da noite, que ficou por conta dos mineiros da Porcas Borboletas. Não pararam quietos enquanto tocavam. Os caras têm uma presença de palco altamente lisérgica, dançando, requebrando e se batendo, enfim, muito foda.
O destaque ficou por conta do percussionista, que lembrou de longe as performances dos caras do Slipknot, revirava o olho, fazendo “cara de doido” e se alternando entre o fundo e a frente do palco. Alguns ficaram se perguntando se ele sabia o que estava fazendo, e por incrível que pareça até quando ele raspava uma latinha de cerveja, ou batia um pedaço de metal arrancado sabe-se lá de onde, nos pratos e na bateria, a música fazia sentido e tudo se encaixava. Com letras que traduzem um pouco da ironia e do humor ácido dos integrantes, eles provocaram reações diversas no pessoal que estava presente. Gostando ou não do som, todos têm que admitir, os caras são bons e sabem fazer um show.
Pra encerrar a noite de maneira forte, chegou a vez da Macaco Bong, a banda que fez boa parte do pessoal que tava ali sair de casa. Logo na primeira música os caras já impressionaram. Alguns olhavam para o lado e percebiam que quem não estava dançando, estava olhando com cara de “abobado” para o palco, de boca aberta ou com um sorriso besta de orelha a orelha.
É difícil de acreditar que só três pessoas consigam fazer um som tão denso e palpável como eles. Em alguns momentos, lembram as guitarradas de Jimi Hendrix sem vocal e de uma maneira muito mais visceral e intensa.
O trio parecia sentir a música e fazer com que todo mundo ali a sentisse da mesma forma, tudo muito honesto. As músicas do disco Artista Igual Pedreiro são exploradas ao máximo durante o show, com inserções de temas improvisados e mudança de pequenos detalhes. Algumas, como a última “Vamos dar mais uma” originalmente gravada em pouco mais de sete minutos, ao vivo passou dos dez.
Ainda apresentaram uma releitura do bom e velho Nirvana, ao passo que parecia que tinham “enfiado” o Kurt Cobain dentro da guitarra do sujeito, o instrumento cantava sem emitir palavras. O show foi bem extenso, mas o tempo passou sem se fazer notar.
Ao fim, ficou a sensação de que há tempos não acontecia um show bom como esse em Maceió e o pessoal da PopFuzz, que também estava lançando sua página na web ontem, ainda prometeu mais coisa pro ano que vem. Tomara que a parceria entre eles e o Fora do Eixo continue trazendo coisa boa pra cá.
Enfim, um evento bem organizado e com qualidade. Fica aqui o reconhecimento da Sirva-se ao esforço e a iniciativa do coletivo que viabilizou esse show. E que venham mais coisas do tipo, Maceió está precisando.
Para conferir os vídeos que fizemos no show, acesso nosso canal no youtube.
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